Repensar a política de segurança hospitalar

“Houve 500 agressões a profissionais de saúde nos primeiros três meses de 2020”

Expresso (19710/20)

Abordagem à segurança hospitalar (componente “security”)

De uma forma natural, todos sentimos necessidade de proteção contra qualquer tipo de acidente ou ato que possa colocar em risco pessoas e/ou bens.

Encontram-se nestes casos a prevenção contra os riscos de incêndio, fugas de gás, inundações, intrusão, roubo e/ou vandalismo.

Ao conjunto de medidas e equipamentos que previnem e detetam os riscos enunciados, convencionou-se designar por Segurança.

Começando pelo princípio, na abordagem àquilo que deveria ser a segurança de um hospital, temos de perceber primeiro quais os principais riscos, ameaças e vulnerabilidades que existem nos diversos “microcosmos” da vida de um hospital.

Se tivermos em consideração que existem cenários de comportamento perfeitamente tipificados em determinadas faixas horárias e em determinados dias da semana / mês, compreendemos que se os sistemas eletrónicos de segurança forem devidamente dimensionados e objetivamente configurados para funcionarem de uma forma diferenciada, durante as horas do dia / noite e tendo em conta a diferenciação operacional dos sistemas nesses períodos de tempo em determinados espaços de circulação, é possível usá-los como uma ferramenta de gestão para implementar e controlar, uma política interna de segurança no hospital.

Pensando bem, os cenários operacionais dos diversos espaços de um hospital durante o dia são completamente diferentes durante a noite.

A altura das visitas, das descargas de fornecedores, dos serviços de limpeza, das manutenções técnicas, são tudo exemplos de janelas espaço / temporais de exposição a riscos de diversos tipos e graus de importância.

Será possível aumentar os níveis de segurança hospitalar sem aumentar os custos?

Afirmar que se pode aumentar níveis de serviço na área da segurança dos hospitais sem aumentar os custos pode parecer um paradoxo, à primeira vista. No entanto, vamos ver que não é…

De todas as consultorias especializadas prestadas a operativas de segurança em clientes, quer do setor público quer privado, foi possível preconizar a redução da exposição ao risco numa série de fatores e otimizar e melhorar os níveis de serviço da vigilância humana, com o recurso a meios eletrónicos de segurança (sistemas de deteção de intrusão, controlo de acessos e videovigilância), reduzindo os custos globais dos contratos a prazo (2 a 3 anos), entre os 20 e os 30%.

Apesar de parecer um paradoxo aumentar os níveis de segurança e diminuir os custos implícitos, tal equação é possível, se forem tidos em conta três fatores essenciais:

1º Fator – Fator humano

Diminuir a dependência do fator humano recorrendo a meios eletrónicos em cada vertente da avaliação de risco (dissuasão, deteção e interrupção) permite aplicar meios humanos de vigilância quando e onde eles são realmente necessários e representam uma mais valia para a solução de segurança aplicada…

2º Fator – Automatização de procedimentos

Os meios eletrónicos são muito mais eficazes nos procedimentos de segurança de deteção do que os meios humanos que, por sua vez, devem especializar-se na utilização operacional dos meios eletrónicos, valorizando o seu desempenho e função, na solução de segurança aplicada…

3º Fator – Gestão e controlo dos níveis mínimos de segurança

Como consultor especializado em soluções integradas de segurança, prevejo alterações significativas a curto e médio prazo, na forma e no objeto, na conceção dos cadernos de encargos de segurança eletrónica e vigilância humana:

Num mercado em transformação como o da segurança privada, onde a tecnologia, sofisticação e complexidade são conceitos já do presente, os cadernos de encargos vão passar a basear-se em políticas de segurança e a preconizar verdadeiras soluções integradas de segurança, descrevendo serviços cada vez mais especializados e personalizados de vigilância humana, com recurso a meios eletrónicos, como ferramentas para a gestão e controlo de níveis mínimos de segurança, otimizados à escala da real exposição ao risco de cada hospital.

Direção da segurança hospitalar

Política de segurança hospitalar é, ou deve ser, a estratégia de proteção de pessoas e bens considerada necessária e suficiente para manter controlado o nível de risco identificado para o hospital em geral e para cada uma das suas áreas hospitalares em particular.

Independentemente de existirem os responsáveis pelas diversas áreas hospitalares, é a Direção de Segurança Hospitalar que deve assumir as linhas de orientação definidas na política de segurança e garantir que são implementadas as medidas de gestão e controlo que permitam assegurar os níveis de segurança adequados a cada uma das áreas hospitalares, quer na vertente de “Safety”, quer de “Security” (vertente analisada neste artigo).

Com os sistemas eletrónicos de segurança a funcionarem como ferramentas de gestão e controlo dos níveis internos de segurança do hospital, a Direção de segurança será capaz de estipular o nível de reação para a maioria das situações consideradas de risco e será capaz de prevenir e interromper aquelas que possam perturbar o normal funcionamento dos diversos espaços operacionais do hospital.

Soluções Integradas de Segurança Eletrónica

Como ponto de partida do dimensionamento das soluções técnicas a implementar, dois princípios fundamentais devem ser tidos em conta: a integração e a rentabilização, sem os quais não é possível cumprirem-se os objetivos de segurança, conforto e economia requeridos.

Desenvolver uma solução de segurança somente em torno da vigilância humana é muito dispendioso e ineficaz em termos de prevenção e capacidade de resposta (situação típica da segurança nos hospitais).

O ideal é conseguir-se um equilíbrio entre tecnologia, soluções mecânicas e níveis de serviço profissionais de vigilância humana.

Além de se reduzirem custos, as soluções técnicas integradas implicam maior capacidade e qualidade na prestação dos serviços.

A proteção das instalações passa pelo controlo e regulação do fluxo de pessoas e veículos e deve abranger desde os portões e vedações, às zonas de acesso restrito.

Em seguida é preciso estabelecer padrões de segurança integrada (serviços especializados suportados na operacionalidade de equipamentos eletrónicos de segurança) que, a longo prazo, permitam manter um nível eficaz de segurança, não só de detecão precoce como também, de interrupção de qualquer ocorrência que ponha em risco as pessoas e/ou as instalações protegidas.

O controlo de acessos a determinadas zonas restritas, a deteção de movimentos e a integração das câmaras de vigilância (CFTV – Circuito Fechado de TV) na operativa de reacção do corpo de vigilância contratado é uma garantia de interrupção de qualquer ocorrência fora do vulgar e não um simples meio de prova contra factos consumados

Cada hospital pode e deve ter a sua própria solução, adequada à sua própria política de segurança interna.

Controlar o fator humano

Os níveis de reação devem representar níveis de serviços a exigir contratualmente à empresa prestadora dos serviços de vigilância humana.

Nesta exigência estão implícitas economias de escala no número de efetivos e um rendimento operacional mínimo garantido dos profissionais de segurança afetos ao serviço, que irá justificar, a prazo, o retorno do investimento em segurança.

A importância da existência da Direção de segurança hospitalar é reforçada pela necessidade de os sistemas eletrónicos de segurança instalados serem programados para monitorizarem os níveis de serviços de segurança contratados, através de reportes automáticos das ocorrências, de relatórios com análises dos tempos de reação e de diversos dados estatísticos necessários e suficientes para a correta gestão da segurança interna do hospital.

A recolha da informação de segurança para apoio à decisão é importante, mas precisa de ser processada e hierarquizada por graus de risco e cenários de ocorrência, se quisermos que a reação a uma ocorrência seja eficaz. Se o sistema não avisar o vigilante operador de que se iniciou uma ocorrência suspeita, capaz de gerar uma situação de perigo, quando o alarme disparar será com certeza tarde de mais para reagir e impedir que o mal aconteça. Apenas resta depois remediar, como de costume…

Quando acontece um alarme, por exemplo a deteção de uma pessoa não autorizada numa determinada zona de hospital, numa determinada hora de risco, é preciso que o vigilante operador possa recorrer aos sistemas eletrónicos de segurança para identificar a ameaça, aferir o grau de risco, acompanhar a evolução da ocorrência, “seguir” remotamente o(s) suspeito(s) e reportar às autoridades e/ou colegas da equipa de intervenção pormenores que podem fazer toda a diferença na eficácia da interrupção do acontecimento. 

É ainda necessário que a notificação de ocorrências e/ou controlo e comando dos equipamentos possa ser disponibilizada em qualquer local e a qualquer hora, tornando-se, portanto, imprescindível a utilização das aptidões e faculdades proporcionadas pelas redes informáticas e de telecomunicações, devendo elas próprias possuir os meios de segurança digitais adequados à dissuasão, prevenção e interrupção de eventuais ataques informáticos.

Só assim se consegue minimizar o risco de falha humana e fazer o contrato de vigilância humana depender de um nível de serviço pré-acordado com a Direção de segurança interna hospitalar.

80% dos problemas têm 20% de causas

É de facto verdade que 80% dos problemas de segurança têm 20% de causas, pelo que se criarmos mecanismos automáticos de controlo dos riscos potenciais, minimizando os seus efeitos, reduzimos significativamente os problemas de segurança.

Mesmo que a probabilidade de acontecer um incidente de risco seja aparentemente baixa, o problema é não existirem meios aplicados que permitam reagir eficazmente a uma ocorrência e muito menos evitar que voltem a acontecer.

Os danos colaterais que um pequeno incidente de risco pode provocar numa estrutura organizacional tão complexa como a de um hospital representam sempre custos muito superiores aos do próprio incidente, quer externos: pela exposição mediática a que está exposta, quer internos: pelo clima de desconfiança e desconforto que provoca nos seus funcionários e colaboradores.

A dimensão das instalações, nº de funcionários, colaboradores e diversidade dos prestadores de serviço implicam que tenham de existir procedimentos internos definidos para a circulação de pessoas e mercadorias, áreas definidas por núcleos de trabalho e respetivos horários de funcionamento.

Os procedimentos têm de estar suportados num sistema de controlo de acesso e deteção de intrusão e os principais espaços de passagem monitorizados pelo sistema de vídeo vigilância, por forma a tornar possível definir, na política de segurança, um nível de serviço para a reação a cenários de risco, por parte da empresa de vigilância humana, e permitir o apuramento de responsabilidades por parte dos órgãos de cada Direção, direta e indiretamente implicados na ocorrência.

Se esta abordagem for realmente tida em conta, será de facto possível baixar significativamente os custos gerais da segurança nos hospitais e melhorar significativamente os níveis dos serviços prestados, independentemente da empresa de vigilância humana contratada ou a contratar.

Alexandre Chamusca

Engenheiro eletrotécnico e consultor de Soluções Integradas de Segurança

Se quiser colocar alguma questão, envie-me um email para achamusca@xkt.pt

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