Materiais em Contacto com os Alimentos e a problemática atual e futura associada aos Plásticos

O consumidor atual, quando adquire e consome géneros alimentícios, assume como premissa que os alimentos são seguros. O termo Food Safety refere-se a todas as condições necessárias ao longo da cadeia alimentar para garantir a existência de alimentos seguros, relativamente a perigos físicos, químicos ou biológicos e saudáveis para o consumo humano[1]. A preocupação dos consumidores em relação à alimentação tem sofrido um processo evolutivo, focando-se atualmente na qualidade alimentar e na relação entre a ingestão alimentar e o estado de saúde.  

Os alimentos têm uma composição complexa e única, destacando-se os macronutrimentos (hidratos de carbono, proteínas e lípidos), os micronutrimentos (vitaminas e minerais) e os fitoquímicos[2]. A matriz alimentar pode incluir compostos químicos adicionais, que se constituem como contaminantes, passíveis de afetar negativamente a saúde do ser humano. Os contaminantes podem estar naturalmente presentes no alimento ou serem de origem antropogénica, como aqueles presentes nos materiais em contacto com os alimentos, que em determinadas condições podem migrar para os alimentos[2, 3].

E se a algumas doenças estivessem associados contaminantes presentes nos alimentos?

Materiais em Contacto com os Alimentos

 Materiais em Contacto com os Alimentos (MCA) são todos os materiais, utensílios e embalagens que contactam, direta ou indiretamente, com os alimentos ou bebidas durante a produção, o armazenamento, a distribuição e venda, a preparação culinária e o consumo dos alimentos e bebidas[4]. Os MCA estão abrangidos pelo Regulamento (CE) N.º 1935/2004, relativo a materiais e objetos destinados a entrar em contacto com os alimentos, que estabelece os princípios e requisitos gerais para todos os materiais. Adicionalmente, define os 17 grupos de materiais e objetos que podem ser abrangidos por medidas específicas: materiais e objetos ativos e inteligentes; adesivos; cerâmicas; cortiça; borrachas; vidro; resinas de permuta iónica; metais e ligas; papel e cartão; plásticos; tintas de impressão; celulose regenerada; silicones; têxteis; vernizes e revestimentos; ceras; madeira. Apenas os plásticos[5], as cerâmicas[6], a película de celulose regenerada ou celofane[7], os materiais ativos e inteligentes[8] e os materiais plásticos reciclados[9] estão compreendidos por medidas específicas da União Europeia (UE).  

Em condições normais e previsíveis de utilização, os MCA devem ser suficientemente inertes, de forma a não transferir os seus constituintes para os alimentos em quantidades que possam afetar negativamente a saúde do consumidor e/ou influenciar a qualidade dos alimentos, mediante alteração da sua composição e/ou das suas características organoléticas, como o sabor e o odor[10]. Contudo, são conhecidos vários fatores que influenciam a migração de substâncias, particularmente o tipo de material, o tipo de contacto, as características do alimento (teor lipídico, pH, quantidade de água, entre outros), a temperatura e o período de contacto e a razão entre a área da superfície do material e o volume do alimento[11, 12].

Plásticos na Alimentação

Em 1907 o primeiro plástico foi criado, mas foi a partir de 1950 que se iniciou a produção e utilização em grande escala deste material. Estima-se que desde a sua criação foram produzidos globalmente 8,3 mil milhões de toneladas de plástico, dos quais cerca de ¾ se tornaram resíduos. Simultaneamente ao crescimento na produção de plásticos, observou-se uma mudança na finalidade da utilização deste material, passando a ser produzidos maioritariamente plásticos de “uso único”, onde se incluem as embalagens que contribuem atualmente em cerca de 40 por cento para a produção de plásticos a nível mundial[13, 14].

Anualmente, entre 8 a 13 milhões de toneladas de plásticos são depositados nos oceanos, provenientes principalmente de rios do continente Asiático, do Rio Nilo e Rio Niger[15]. A degradação de plásticos é um processo lento e que nem sempre conduz à total degradação dos mesmos. Uma vez nos oceanos, os plásticos tornam-se mais frágeis por ação da radiação ultravioleta e os efeitos do vento e das ondas contribuem lentamente para a sua fragmentação e redução a partículas de menores dimensões – os microplásticos e os nanoplásticos[13, 16]. Se ingeridas pelo Zooplâncton, estas partículas entram na cadeia alimentar e poderão chegar ao nosso prato, tendo já sido identificados microplásticos em sal marinho e em água engarrafada e potável de torneira[13]. Desta forma, a  presença de plásticos nos oceanos constitui uma ameaça à biodiversidade marinha, à economia local e global e potencialmente à saúde humana[15].

Mas afinal o que são os plásticos? São substâncias macromoleculares constituídas por monómeros e outras substâncias iniciadoras que reagiram quimicamente para originar o polímero[5]. Ao polímero são acrescentados aditivos como plasticizantes, antioxidantes, catalisadores e pigmentos, entre outros, para alcançar efeitos tecnológicos específicos[17].

Os potenciais riscos para a saúde associados aos materiais plásticos podem advir dos monómeros, das substâncias iniciadoras que não reagiram ou que reagiram incompletamente ou de aditivos, que por não estarem ligados ao polímero podem ser transferidos por migração[5].

O Bisfenol A (BPA) e os ftalatos são contaminantes ubíquos no ambiente, sendo utilizados respetivamente como monómero e aditivo na produção de plásticos[18, 19]. A alimentação constitui a principal fonte de exposição do Homem devido à migração destes em pequena quantidade para os alimentos, que pode ocorrer em diferentes etapas da cadeia alimentar[19]. As garrafas de água, os talheres de plástico, alimentos e bebidas em lata podem conter vestígios de BPA e as embalagens de alimentos vestígios de ftalatos[18, 19]. Devido ao caráter lipofílico dos ftalatos, encontra-se proibida a utilização de três ftalatos na produção de plásticos de embalagens que se destinam a contactar com alimentos com elevado teor lipídico[5].

Ambos as substâncias são reconhecidas como prováveis Disruptores Endócrinos (DE), que de acordo com a Organização Mundial da Saúde se definem como “uma substância ou mistura de substâncias exógenas que altera a(s) função(ões) do sistema endócrino e consequentemente causa efeitos adversos num organismo ou na sua descendência”[20], embora os possíveis efeitos adversos associados resultem da exposição crónica a estes DE.

De acordo com a European Food Safety Authority (EFSA), a exposição estimada ao BPA através da alimentação ou da combinação das várias fontes não representa risco para a saúde de qualquer grupo populacional, uma vez que a exposição é bastante inferior à dose diária admissível temporária desta substância[18]. No entanto, em modelos animais a exposição a elevadas doses de BPA demonstraram efeitos adversos a nível hepático, renal e da glândula mamária, sendo também conhecidos os possíveis efeitos nos sistemas reprodutor, nervoso, imunitário, metabólico e cardiovascular, bem como no desenvolvimento de cancro[12, 18]. Em humanos, verifica-se uma possível associação entre a exposição ao BPA e o desenvolvimento de síndrome do ovário poliquístico, cancro da mama, infertilidade masculina, hiperplasia/cancro da próstata, hipotiroidismo, obesidade, diabetes mellitus tipo 2 e síndrome metabólico[21, 22].

A exposição estimada aos ftalatos através da alimentação é igualmente inferior aos valores admissíveis[17]. Porém, em estudos com níveis de ingestão mais elevados em modelos animais, a EFSA observou que alguns ftalatos causam efeitos adversos a nível do sistema reprodutor e a nível hepático[23-26]. Reconhece-se a possível associação entre a exposição a ftalatos e infertilidade masculina, telarca precoce e alteração da genitália, em humanos[21].

A invenção do plástico foi um marco importante para o desenvolvimento de vários setores, mas a problemática atual e futura dos plásticos na alimentação e na saúde prende-se com o consumo e utilização inadequados deste material e da contaminação ambiental com os resíduos que deles resultam, ou seja, ações humanas. Ao longo de toda a vida o Homem encontra plásticos em contacto com os alimentos e uma vez que os efeitos na saúde são pouco conhecidos, deve evitar-se a exposição desnecessária aos mesmos.  Assim, cada um de nós pode contribuir para combater esta problemática, por exemplo recusando a utilização de plásticos descartáveis em serviços de restauração coletiva. Urge a necessidade de os serviços de restauração coletiva repensarem a sua atuação na cadeia alimentar, promovendo a sustentabilidade alimentar e ambiental.


Janete Rocha – nutricionista (3712N)
António Pedro Mendes -nutricionista (2157N)

Artigo publicado na Hotelaria & Saúde 14


1.    European Commission. Food Safety: Overview.  [cited 2018 August 13]; Available from: https://ec.europa.eu/food/overview_en.
2.    Teixeira D., Pestana D., Calhau C., Graça P., Linhas de Orientação sobre Contaminantes de Alimentos 2015: Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável, Direção-Geral da Saúde.
3.    European Food Safety Authority., Food and Agriculture Organization of the United Nations., World Health Organization., Towards a harmonised Total Diet Study approach: a guidance document. EFSA Journal, 2011.
4.    Autoridade de Segurança Alimentar e Económica. Materiais em Contacto com Alimentos.  [cited 2018 August 13]; Available from: http://www.asae.gov.pt/seguranca-alimentar/materiais-em-contacto-com-alimentos.aspx.
5.    Comissão Europeia., REGULAMENTO (UE) N.º 10/2011 DA COMISSÃO de 14 de Janeiro de 2011 relativo aos materiais e objectos de matéria plástica destinados a entrar em contacto com os alimentos. 2011: Jornal Oficial da União Europeia.
6.    Comissão das Comunidades Europeias., DIRECTIVA 2005/31/CE DA COMISSÃO de 29 de Abril de 2005 que altera a Directiva 84/500/CEE do Conselho no que diz respeito à declaração de conformidade e aos critérios de desempenho do método analítico relativamente a objectos cerâmicos destinados a entrar em contacto com os géneros alimentícios. 2005: Jornal Oficial da União Europeia.
7.    Comissão das Comunidades Europeias., DIRECTIVA 2007/42/CE DA COMISSÃO de 29 de Junho de 2007 respeitante aos materiais e objectos em película de celulose regenerada destinados a entrar em contacto com géneros alimentícios. 2007: Jornal Oficial da União Europeia.
8.    Comissão das Comunidades Europeias., REGULAMENTO (CE) N.º 450/2009 DA COMISSÃO de 29 de Maio de 2009 relativo aos materiais e objectos activos e inteligentes destinados a entrar em contacto com os alimentos. 2009: Jornal Oficial da União Europeia.
9.    Comissão das Comunidades Europeias., REGULAMENTO (CE) N.º 282/2008 DA COMISSÃO de 27 de Março de 2008 relativo aos materiais e objectos de plástico reciclado destinados a entrar em contacto com os alimentos e que altera o Regulamento (CE) n.o 2023/2006. 2008: Jornal Oficial da União Europeia.
10.    Parlamento Europeu e do Conselho da União Europeia., REGULAMENTO (CE) N.º 1935/2004 DO PARLAMENTO EUROPEU E DO CONSELHO, de 27 de Outubro de 2004, relativo aos materiais e objectos destinados a entrar em contacto com os alimentos e que revoga as Directivas 80/590/CEE e 89/109/CEE. 2004: Jornal Oficial da União Europeia.
11.    Autoridade de Segurança Alimentar e Económica. Migração.  [cited 2018 August 13]; Available from: http://www.asae.gov.pt/seguranca-alimentar/materiais-em-contacto-com-alimentos/migracao.aspx.
12.    Repossi, A., et al., Bisphenol A in Edible Part of Seafood. Ital J Food Saf, 2016. 5(2): p. 5666.
13.    United Nations Environment Programme., Single-use Plastics - A Roadmap for Sustainability. 2018.
14.    PlasticsEurope - Association of Plastics Manufacturers., Plastics – the Facts 2017 An analysis of European plastics production, demand and waste data. 2017.
15.    United Nations Environment Programme.  [cited 2018 August 14]; Available from: https://www.unenvironment.org/.
16.    Waring, R.H., R.M. Harris, and S.C. Mitchell, Plastic contamination of the food chain: A threat to human health? Maturitas, 2018. 115: p. 64-68.
17.    Autoridade de Segurança Alimentar e Económica. Utilização de Plásticos no Microondas.  [cited 2018 August 14]; Available from: https://www.asae.gov.pt/seguranca-alimentar/conselhos-praticos-para-os-consumidores/utilizacao-de-plasticos-no-microondas.aspx.
18.    European Food Safety Authority. Bisphenol A [cited 2018 August 10]; Available from: https://www.efsa.europa.eu/en/topics/topic/bisphenol.
19.    Sakhi, A.K., et al., Concentrations of phthalates and bisphenol A in Norwegian foods and beverages and estimated dietary exposure in adults. Environ Int, 2014. 73: p. 259-69.
20.    World Health Organization., International Labour Organisation., United Nations Environment Programme., Global Assessment of the State-of-the-Science of Endocrine Disruptors 2002.
21.    Castro-Correia, C. and M. Fontoura, A influência da exposição ambiental a disruptores endócrinos no crescimento e desenvolvimento de crianças e adolescentes. Revista Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo, 2015. 10(2): p. 186-192.
22.    Stojanoska, M.M., et al., The influence of phthalates and bisphenol A on the obesity development and glucose metabolism disorders. Endocrine, 2017. 55(3): p. 666-681.
23.    Scientific Panel on Food Additives Flavourings Processing Aids and Material in Contact with Food (AFC). Opinion of the Scientific Panel on Food Additives, Flavourings, Processing Aids and Material in Contact with Food (AFC) on a request from the Commission related to  Bis(2-ethylhexyl)phthalate (DEHP) for use in food contact materials The EFSA Journal, 2005.
24.    Scientific Panel on Food Additives Flavourings Processing Aids and Material in Contact with Food (AFC). Opinion of the Scientific Panel on Food Additives, Flavourings, Processing Aids and Material in Contact with Food (AFC) on a request from the Commission related to Di-Butylphthalate (DBP) for use in food contact materials The EFSA Journal, 2005.
25.    Scientific Panel on Food Additives Flavourings Processing Aids and Material in Contact with Food (AFC). Opinion of the Scientific Panel on Food Additives, Flavourings, Processing Aids and Materials in Contact with Food (AFC) on a request from the Commission related to Butylbenzylphthalate (BBP) for use in food contact materials. The EFSA Journal, 2005.
26.    Scientific Panel on Food Additives Flavourings Processing Aids and Material in Contact with Food (AFC). Opinion of the Scientific Panel on Food Additives, Flavourings, Processing Aids and Materials in Contact with Food (AFC) on a request from the Commission related to Di-isononylphthalate (DINP) for use in food contact materials. The EFSA Journal, 2005.

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