Economia Circular no âmbito da Saúde

  • 09 dezembro 2020, quarta-feira
  • Gestão

A Economia Circular constitui uma das prioridades da política da União Europeia (UE). A aceleração da transição para esse modelo económico, centrado na maximização do valor, da eficiência e da produtividade de materiais e recursos, é uma opção estratégica, que visa obter vantagens competitivas e sustentáveis, numa Europa fortemente dependente de importações de matérias-primas (apenas 9% dos 54 materiais considerados essenciais são extraídos em território europeu[1]), que representam uma parte significativa dos custos de produção (nomeadamente, entre 30% a 50%[2]). Perante o significado económico destes recursos, e o crescimento e volatilidade dos respetivos preços nos últimos anos, estima-se que, através de uma melhoria em 30% da eficiência e da produtividade no uso dos materiais até 2030, a Europa obterá poupanças anuais na ordem dos 600 mil milhões de euros[3].

Por outro lado, este é um caminho a partir do qual a Europa pode destacar-se e diferenciar-se a nível global, por tomar a dianteira na prossecução de um desenvolvimento económico sustentável, orientado por um crescimento verde, que minimiza riscos ambientais. Portanto, esta também é uma forma de responder aos desafios que se colocam a nível mundial, os quais estão relacionados com a previsível insuficiência de recursos para uma população que se estima crescente, e com as alterações climáticas e a degradação ambiental, que terão impacto na qualidade de vida dos indivíduos, inclusive na Saúde Pública.

No caso português, o indicador de produtividade material evolui abaixo da média europeia. A partir do cenário de 2015, no qual as matérias-primas, em Portugal, contabilizavam 53% dos custos da indústria transformadora, 42% dos custos da agricultura e 37% dos custos do setor da energia, estima-se que uma redução em 30% da Entrada Direta de Materiais (EDM), por via da eficiência e da produtividade ao longo da cadeia de valor, aumente o Valor Acrescentado Bruto (VAB) em 3,3 mil milhões de euros[4]. Perante este panorama, e em alinhamento com a política da UE, o XXI Governo Constitucional Português aprovou, através da Resolução do Conselho de Ministros n.º 190-A/2017, de 23 de novembro, o Plano de Ação para a Economia Circular (PAEC) para Portugal.

Para atingir os objetivos em questão, não basta uma mobilização parcial da sociedade. Ter-se-á de envolver o Estado, as organizações privadas e as famílias. No caso do setor da Saúde, no qual já existem várias medidas, de abordagem circular, implementadas ou em desenvolvimento, é obrigatória a dinamização das mesmas, dada a responsabilidade do setor na criação de saúde. A qualidade ambiental, nomeadamente a qualidade do ar, da água e do solo (além das catástrofes às quais estamos cada vez mais vulneráveis), têm impacto na saúde humana, pelo que apostar na preservação desses três determinantes é igualmente apostar na prevenção de doenças, que ao não serem evitadas poderão significar perda de qualidade de vida e maior procura por cuidados de saúde.

De uma forma genérica, as instituições de saúde podem intensificar os seus contributos para a conversão da economia num modelo circular, efetuando escolhas, no âmbito da sua gestão, que privilegiem: as compras ecológicas; as locações operacionais (quer de equipamentos, quer de material têxtil); a logística reversa; a cooperação e a partilha de recursos entre instituições; investimentos com objetivos de eficiência energética, hídrica e/ou de redução de resíduos; a monitorização de consumos (nomeadamente alimentares, energéticos, hídricos, de medicamentos e de consumíveis); a implementação de ações que visem ultrapassar ineficiências detetadas; e a Saúde Digital (a qual abrange a desmaterialização de processos, a melhoria dos fluxos de informação e a utilização da Telemedicina).

É necessário sublinhar que será a inovação a ter um papel central neste modelo económico, dado pretender-se o desenvolvimento de novos produtos, serviços e processos de gestão, economicamente viáveis e ecologicamente eficientes, que maximizem o período e os ciclos de vida dos bens e dos respetivos materiais que os compõem.

O setor da Saúde, como relevante consumidor de uma diversidade de recursos, poderá incentivar o mercado privado a apostar na inovação e na produção de bens e serviços mais eficientes, dando sinais das suas preferências, através da sua política de compras. Ao procurar no mercado por materiais, equipamentos e execuções de obras, com características ecológicas, espoletará a criação de novas soluções por parte de empreendedores. Numa fase inicial, a concretização desta ação poderá implicar um maior esforço financeiro. No entanto, esse esforço poderá, por um lado, reduzir-se através da competitividade do próprio mercado e, por outro, ser compensado pela maior eficiência e durabilidade do bem associado. Em acréscimo, promover-se-á a redução de custos para o ambiente e para a sociedade.

De forma similar, a preferência por alugueres de equipamento e de material têxtil, em detrimento da aquisição e da propriedade dos mesmos, gera incentivos para a produção de bens com vidas úteis programadas mais longas, com peças mais facilmente desmontáveis, substituíveis e reparáveis, visto que os custos de manutenção e reparação passam a ser suportados pelos próprios fornecedores, que nesse cenário pretenderão reduzir e gerir os custos da forma mais eficiente.

Para contribuir para um padrão de consumo alimentar sustentável, a Saúde deve desenvolver ações que visem a minimização de desperdícios, de forma complementar à sua política de alimentação saudável. Mais concretamente, as entidades de saúde deverão planear, monitorizar e otimizar o consumo de recursos, e dar uma segunda oportunidade a alimentos excedentários, através de doação de alimentos e de processos de compostagem. Em acréscimo, deve ser avaliada a oportunidade de estabelecer relações contratuais com fornecedores locais, o que, a acontecer, contribuirá quer para a dinamização da economia local, quer para a redução de circuitos de transporte. Entre as boas práticas já implementadas, temos a monitorização dos alimentos rejeitados pelos utentes; a personalização das dietas; a formação e sensibilização dos recursos humanos para o tema do desperdício alimentar; a doação de excedentes alimentares para instituições de solidariedade; e a criação e utilização de hortas, como instrumento terapêutico. De salientar que o combate ao desperdício alimentar é um desafio a nível mundial, relacionado, por um lado, com a necessidade previsível de uma maior disponibilidade de recursos alimentares (devido ao crescimento esperado da população, da classe média e da residência em centros urbanos), e por outro, pela necessidade de minimizar o impacte ambiental, causado pela crescente pressão sobre o capital natural e pela emissão de gases de efeito de estufa, da qual a agricultura é uma fonte considerável.

Assim sendo, através da atuação no âmbito da prevenção, do diagnóstico e do tratamento de doenças, as entidades de Saúde devem integrar nos seus modelos de gestão opções “circulares”, por forma a impulsionar um modelo económico, que apresenta potencial, quer na dinamização da atividade económica, quer na minimização dos riscos ambiental e de Saúde Pública.


[1] Fonte: Resolução do Conselho de Ministros (RCM) n.º 190-A/2017, de 23 de novembro.

[2] Fonte: RCM n.º 190-A/2017, de 23 de novembro.

[3] Fonte: RCM n.º 190-A/2017, de 23 de novembro.

[4] Fonte: RCM n.º 190-A/2017, de 23 de novembro.

Ana Isabel Pereira Guerreiro

Técnica Superior na ACSS

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